CORRENDO PARA RECUPERAR O ATRASO
Diante do péssimo desempenho do país no ranking global da infraestrutura, investimentos no setor crescem e atingem o montante de R$ 1,48 trilhão nos próximos cinco anos
Os investimentos em infraestrutura avançam no Brasil, apesar do cenário de crise mundial.
Desde 2009, a Sobratema tem acompanhado esse mercado por meio de uma pesquisa anual, usando fontes primárias e dados secundários para mapear o quadro atual e as perspectivas no horizonte de cinco anos. As métricas atuais confirmam o ciclo virtuoso do Brasil: elas apontam um crescimento de 28,5% no número de obras e de 21,3% em termos de investimentos. Em 2010, a pesquisa listou 9.550 projetos, distribuídos em 11 setores, que movimentariam nada menos do que R$ 1,22 trilhão em investimentos até 2015
A atualização desses dados, em 2011, indica que os investimentos previstos podem atingir R$ 1,48 trilhão, compreendendo 12.265 obras, nos próximos cinco anos. Ao contrário de 2010, o levantamento dividiu esse volume de obras em 10 setores, devido à consolidação dos projetos da Copa do Mundo e das Olimpíadas em uma classificação única. A elevação dos valores da carteira de investimentos em relação ao relatório anterior se deve principalmente à entrada de novos projetos no setor de óleo e gás, essencialmente privados, e também à aceleração das obras de infraestrutura para os eventos esportivos. Os novos projetos de complexos portuários e de mobilidade urbana também contribuíram favoravelmente para o incremento dos números previstos este ano.
Tais valores indicam que os investimentos em construção continuam impulsionando o crescimento da economia. A média de crescimento anual do Produto Interno Bruto (PIB ) é de 1,7% desde 1998, atingindo picos significativos como os 7,5% registrados em 2010. É nítida a influência do primeiro Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 1), lançando entre 2006 e 2007, que impulsionou o crescimento do PIB de 4% (2006) para 6,1% (2007). A estimativa para 2011 é de que o PIB cresça 5%, atingindo 5,5% em 2012 e mantendo um nível de 6,5% em 2013 e 2014. A segunda versão do PAC , lançanda no meio do ano passado, deve contribuir igualmente para o fortalecimento das obras de infraestrutura, visto que esse segmento é mais dependente dos investimentos públicos do que, por exemplo, a área imobiliária.
Apesar dos investimentos do PAC , no entanto, os vários segmentos que compõem a infraestrutura brasileira apresentam indicadores ruins. O parâmetro de referência é o Relatório de Competividade Global 2011-2012, que posiciona o país em um nada glorioso 104° lugar entre 142 nações analisadas. O nível de investimento em infraestrutura mostra o porquê dessa posição no ranking global, que é elaborado pelo World Economic Forum. Entre 2006 e 2009, o Brasil teria investido 2,1% do seu PIB em infraestrutura, quando seriam necessários 3%, distribuídos entre reposição do capital existente (1%), atendimento das necessidades da população (1,3%) e universalização dos serviços de água, saneamento e eletricidade (0,7%). E mais: se o País quiser alcançar os padrões das nações industrializadas da Ásia, será necessário que se aplique anualmente de 5% a 7% do PIB nos próximos 20 anos, de acordo com um estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES ).
Além dos investimentos, o crescimento da infraestrutura implica outros importantes desafios: oferta e qualificação de mão de obra e maior participação do setor privado nos investimentos. No primeiro caso, é importante destacar que a maior geração formal de trabalho no Brasil em 2010 foi para os serventes de obras: 200 mil novos postos. Os dados são do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. Os números são o resultado da diferença entre os 2,4 milhões de profissionais contratados e os 2,2 milhões que perderam emprego, o que indica uma alta rotatividade no setor. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC ), por sua vez, informa que nos últimos 12 meses (agosto de 2010 / agosto de 2011) os serventes tiveram um reajuste salarial de 13,28%, valor bem acima, por exemplo, do aumento de 4,11% registrado no preço do cimento no mesmo período. Isso prova que a mão de obra continuará sendo um fator chave para a construção civil.
O segundo item importante na agenda da infraestrutura é a necessidade de ampliação dos investimentos privados, uma vez que a máquina pública tem limitações: pouco mais de 5% da proposta orçamentária de 2011 estaria disponível para investimento, o que somaria cerca de R$ 107 bilhões. Por isso, mais do que nunca o BNDES se destaca como agente de financiamento. Entre 2009 e o primeiro semestre desse ano, o banco aplicou nada menos do que R$ 35,8 bilhões em projetos vinculados ao PAC . O desembolso do BNDES até julho indicava investimentos de R$ 69,4 bilhões, dos quais R$ 28,8 bilhões teriam sido destinados ao setor de infraestrutura.
O mapa dos investimentos
O monitoramento das obras de infraestrutura revela a região Sudeste como o maior canteiro de obras do País, tanto em termos de investimentos como em quantidade de projetos. Os quatro Estados somam mais de R$ 835 bilhões aplicados em pouco mais de 3,2 mil projetos. São Paulo e Minas Gerais duelam pelo primeiro posto, com 1,2 mil e 1,1 mil obras, respectivamente. O Espírito Santo sozinho concentra mais investimentos (R$ 92 bilhões) do que toda a região Norte (R$ 88,5 bilhões). Assim como acontece em outras regiões, há várias obras sendo executadas em mais de um Estado. No Sudeste, esse tipo de ocorrência soma R$ 214,9 bilhões.
Os maiores investimentos estão no Rio de Janeiro, com R$ 277 bilhões, o que coloca esse estado como o maior depositário de recursos para infraestrutura. Basta dizer que, sozinho, o Rio concentra mais investimentos do que os quatro estados nordestinos mais favorecidos com aplicações. As obras – em volume de dinheiro – são dez vezes maiores do que os projetos listados em Roraima. São Paulo fica em segundo lugar com R$ 185,4 bilhões, seguido pelo Espírito Santo e Minas Gerais, esse último com R$ 65 bilhões. No conjunto, o Sudeste também responde por aproximadamente um quarto de todos os projetos listados pela pesquisa.
O segundo lugar em investimentos cabe à região Nordeste, com R$ 344,6 bilhões, distribuídos em dois grupos de estados: quatro deles concentram os maiores valores, com os outros cinco complementando o bolo. Do quarteto majoritário, destaque para o Ceará, que concentra R$ 88,9 bilhões, seguido pela Bahia (R$ 68,5 bilhões), Pernambuco (R$ 61,3 bilhões) e Maranhão (R$ 54,1 bilhões). Alagoas aparece como o primeiro do grupo dos cinco com menos investimentos, com R$ 12,7 bilhões. Na sequência aparecem o Rio Grande do Norte (R$ 6,3 bilhões), Piauí (R$ 4,8 bilhões), Sergipe (R$ 4,1 bilhões) e Paraíba (R$ 3,6 bilhões). Em termos de obras, o Ceará se posiciona em terceiro lugar na região, com 776 projetos, perdendo para a Bahia (852) e Pernambuco (819).
Os três estados do Sul respondem por R$ 100,4 bilhões de investimentos em infraestrutura e pouco mais de 1,5 mil projetos. A distribuição é quase que igualitária, mas inversamente proporcional. Santa Catarina ocupa a lanterna em termos de quantidade de obras, com 438 projetos, mas lidera em volume de investimentos, totalizando R$ 37,8 bilhões. Os gaúchos ocupam um segundo lugar em obras (559) e em investimentos (R$ 33,6 bilhões) enquanto o Paraná concentra mais projetos (582) e menor volume de aporte (R$ 25,2 bilhões).
Roraima ocupa posição de destaque na região Norte, com R$ 27,1 bilhões em investimentos, perdendo somente para o Pará, que concentra o maior número de obras (409) e os maiores investimentos (R$ 33 bilhões). O Amazonas, por sua vez, registra 357 projetos e investimentos de R$ 14,6 bilhões. Os demais Estados respondem pelo restante dos R$ 88,5 bilhões que a região receberá em investimentos. Já no Centro-Oeste, o padrão da região Sul se repete e os investimentos totais de R$ 44,9 bilhões estão praticamente divididos de forma equânime. O Mato Grosso e seus R$ 18,3 bilhões saem um pouco da média, principalmente quando comparados ao Distrito Federal (R$ 8 bilhões). O Mato Grosso do Sul tem o maior volume de obras (496).
Energia puxa os aportes
A distribuição dos projetos também pode ser analisada de acordo com os dez setores indicados na pesquisa. É o caso do segmento de energia, que deverá demandar investimentos de R$ 190 bilhões em geração e outros R$ 46 bilhões em transmissão, ambos distribuídos entre 2011 e 2020. As hidrelétricas respondem por metade desse montante (51%), seguidas pelos projetos em pequenas centrais hidrelétricas (PCH s), em biomassa, geração eólica (36%) e termelétrica (13%). Somente na área de PCH s, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) estaria examinando cerca de 1 mil novos projetos. A geração de energia renovável a partir dos ventos também já teria R$ 4,1 bilhões em projetos analisados pelo BN DES e haveria outros R$ 3 bilhões na fila para avaliação.
No setor de combustíveis, os investimentos totalizariam US$ 300 bilhões entre 2010 e 2020, sendo que apenas a Petrobras já teria anunciado aportes de R$ 224 bilhões entre 2011/2015. Um exemplo são os projetos de dutos para transporte de álcool, que somariam cerca de 1,3 mil quilômetros de rede. Contando todas as empresas envolvidas, a área de exploração e produção de petróleo deve consumir US $ 117,7 bilhões em recursos, sendo 65% desse total carreado para o desenvolvimento de produção. A área de exploração ficaria com 18%, seguida de investimentos em infraestrutura (17%). O setor de gás demandaria outros US $ 9 bilhões, investidos em projetos para atender o consumidor final, ampliar as termelétricas e as plantas de transformação.
Os números do setor de saneamento, o terceiro bloco analisado pela pesquisa, indicam que há um longo caminho a ser percorrido, pois o Brasil precisará investir R$ 220 bilhões até 2022, caso queira universalizar o sistema de coleta e tratamento de esgoto. Atualmente, cerca de 54% dos domicílios brasileiros têm acesso ao sistema de esgoto, mas 33% deles usam soluções inapropriadas. Os investimentos seriam positivos, pois a cada R$ 1 bilhão aplicado no setor, há o potencial de geração de 42 mil empregos diretos e indiretos. Os investimentos mapeados pela pesquisa indicam um total de R$ 85,4 bilhões, distribuídos em cerca de 7,4 mil obras.
No setor de transportes, os valores chegam a R$ 343 bilhões, com alguns destaques importantes. É o caso do projeto do trem de alta velocidade (TAV ), que poderá consumir cerca de R$ 34,6 bilhões, ou praticamente 10% dos valores estimados, caso venha a se tornar viável. O PAC , por sua vez, tem previsão de investimentos que atingem R$ 42,5 bilhões em infraestrutura logística para 2012, dos quais R$ 16,8 bilhões para transporte e outros R$ 12,6 bilhões em obras rodoviárias. Dos projetos em metrôs, a linha 5 – Lilás, de São Paulo, lidera os aportes, com R$ 5 bilhões e 20 km de extensão. Os gaps nesse setor são grandes: basta lembrar que o número de passageiros nos aeroportos cresceu 118% entre 2003 e 2010 e que pouco mais de 10% da malha rodoviária nacional está pavimentada.
O setor habitacional, também abarcado nessa pesquisa, contempla investimentos totais de R$ 17,8 bilhões. A primeira fase do programa Minha Casa, Minha Vida vai entregar, até 2012, 60% das residências contratadas. A segunda etapa poderá envolver até R$ 125,7 bilhões em investimentos, sendo R$ 72,6 bilhões na forma de subsidio e o restante na modalidade de financiamentos.
Com estimativa de 87,2 bilhões em obras mapeadas, a área industrial registra um crescimento de 2%, uma redução significativa em relação à pesquisa anterior, quando foi registrado o incremento de 10,5%. O BN DES , por outro lado, aumentou sua participação em 2010, investindo 24% a mais do que no ano anterior e somando R$ 78,8 bilhões. O nível de faturamento do setor no ano passado, que apresentou uma média de crescimento de 3,7%, não deve se repetir em 2011, uma vez que a estimativa é de 1,4%.
Na área de hotéis e resorts, a pesquisa mapeia 81 projetos, que, juntos, totalizam R$ 51 bilhões, com forte concentração no nordeste, detentor de 35 obras e R$ 38,9 bilhões em investimentos. Há uma previsão de investimentos maiores, inclusive com incentivos como o Programa ProCopa Turismo, que disponibiliza um orçamento inicial de R$ 1 bilhão. Os desembolsos da instituição para essa área fecharam a R$ 185 milhões em 2010, contra os R$ 114 milhões em 2009.
Os projetos de shopping centers, por sua vez, somam R$ 9,5 bilhões em investimentos mapeados, divididos em 73 empreendimentos, dos quais 45 estão no Sudeste, que concentra o maior volume de aportes nesse segmento: R$ 5,9 bilhões. O setor sozinho faturou R$ 87 bilhões em 2010, um aumento de 17% em relação ao ano anterior. E mais: deve crescer 12% em 2011, com a ativação de 43 novos shoppings. O interior do Brasil está ganhando cada vez mais espaço, concentrando hoje 45% dos empreendimentos ativos, contra a média de 30% na década de 1980.
A infraestrutura esportiva, que nesse caso reúne os investimentos previstos para a Copa e para as Olimpíadas, soma R$ 14 bilhões, sendo 72,4% do valor destinado a 30 obras de estádios e arenas e outros 29 projetos diversos. Dados do Ministério dos Esportes indicam que os projetos de infraestrutura para a Copa devem responder por R$ 23,8 bilhões em investimentos. A mobilidade urbana será o maior desafio desse setor, segundo o Portal Copa 2014, principalmente no que se refere aos projetos de BRT s. Para a Copa, os investimentos em estádios somariam R$ 6,4 bilhões, de acordo com a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). Os demais projetos não listados nos setores acima totalizam outros R$ 14,8 bilhões em 59 obras de hospitais, edifícios públicos, universidades, penitenciárias e outros empreendimentos.
AOS TRANCOS E BARRANCOS, 2011 DEIXA UM SALDO RAZOÁVEL
POR BRIAN NICHOLSON(*)
Foi, afinal, um ano razoável? Certamente, 2011 não protagonizou nenhum "espetáculo de crescimento", nem na economia brasileira em geral, nem no setor de equipamentos para construção, como vimos, por exemplo, em 2010. Por outro lado, as vendas de equipamentos também não entraram em colapso, depois da explosão do ano anterior. Com isso, o mercado se consolidou num patamar três vezes maior que em meados da década. Nada mal. Ao colocar isso no contexto do desempenho mundial do setor, temos razões de sobra para encarar o futuro com otimismo.
O ano começou com alegria, embalado pela posse da primeira mulher na presidência do país, mas também com crescente percepção de que a doce expansão de 7,5% do PIB, em 2010, deixava uma conta salgada a pagar. Não cabe aqui indagar até que ponto essa pujança anterior seria reflexo inevitável de medidas essenciais para proteger a economia brasileira contra a turbulência internacional, ou de um erro de cálculo na dose do remédio, ou de um retorno à prática – tradicional, mas pouco saudável – de meter o pé na tábua em ano eleitoral, para pensar depois nas consequências.
Basta dizer que o Banco Central ingressou 2011 com o pé no freio, aumentando a taxa Selic em janeiro. Com medo da inflação, o BC adicionou um total de 175 pontos básicos até julho; percebeu então que a maré internacional corria fortemente em sentido contrário e começou a remar rapidamente na direção oposta, tirando 100 pontos em três meses. Sinais tão contraditórios, nesse curto espaço de tempo, criaram alguma incerteza em setores mais sensíveis, como a da construção residencial, mas não foram o fator dominante para as vendas dos equipamentos. Às vezes, parecia mais importante ler nos jornais o caderno de política, e eventualmente o policial, que a seção de economia.
Turbulência interna
Qualquer administração nova sempre precisa de certo tempo para entrar no ritmo, mas havia uma expectativa inicial de que o governo da presidente Dilma Rousseff, descrito afinal como sendo "de continuidade", teria uma transição mais suave. Também houve a esperança de que Rousseff, anteriormente alardeada como "a mãe do PAC", com estilo de "gerentona", teria experiência para manter o ritmo dos investimentos, agilizando os processos de licenciamento e licitação.
Infelizmente, foram muitas as reclamações de empreiteiros no primeiro semestre, no sentido de que os projetos simplesmente não andavam – ora por problemas de licenciamento e licitação, ora por problemas de repasse de verba, embora o governo negasse qualquer redução nos investimentos em infraestrutura. Entre as medidas para resfriar a economia no início no ano, o governo federal promoveu um corte de gastos de R$50 bilhões – pelo menos no valor anunciado – que veio junto com a promessa de que as obras do PAC seriam preservadas.
Até julho, o BNDES desembolsou R$ 26,8 bilhões em crédito para a área da infraestrutura, 3,7% mais que nos primeiros setes meses de 2010 em valores nominais, mas com uma queda da mesma ordem de grandeza descontando a inflação. Por setor, o valor do crédito para transportes terrestres ficou quase igual, indicando uma queda real talvez da ordem de 5%, enquanto os valores destinados a energia elétrica e gás natural, transportes aéreos e transportes aquaviários subiram em termos reais. Obras de água, esgoto e telecomunicações receberem menos recursos.
Ao mesmo tempo, o novo governo também sinalizou uma mudança na maneira de conduzir as obras de rodovias e ferrovias nos projetos do PAC. Em geral, elas não seriam mais licitadas com seus projetos básicos, prática que levou inevitavelmente a uma série de aditivos. "No PAC-2, vamos contratar só com projetos executivos," explicou a ministra do Planejamento, Miriam Belchior. Ao mesmo tempo, o governo reconheceu, implicitamente, a demora nos processos de licitação, algo que pode piorar com a adoção do novo procedimento, ao fazer passar pelo Congresso o Regime Diferenciado de Contratação (RDC) para projetos ligados à Copa do Mundo e aos Jogos Olímpicos.
Pelo sim, pelo não, o governo publicou no final de julho o "1º Balanço do PAC-2" mostrando que "até 30 de junho de 2011, 89% das ações monitoradas estavam em ritmo adequado". Esse dado, segundo o documento oficial, "demonstra que o PAC está com suas atividades realizadas no ritmo previsto". O consumo de dois insumos chaves da construção, de janeiro até julho, jogou luz interessante no comportamento do setor: a demanda de asfalto apresentou uma queda de 15%, comparado com o mesmo período de 2010, enquanto a de cimento avançou 7,6%.
O setor de transportes – grande consumidor de asfalto – foi provavelmente o mais afetado pela onda de denuncias de irregularidades que dominou boa parte do primeiro ano do novo governo. Tanto no ministério da área quanto no Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), as acusações de superfaturamento de obras chegaram ao ponto de praticamente paralisar o andamento dos projetos.
A Copa do Mundo é nossa!
Enquanto a turbulência política continuava no quarto trimestre, com a renúncia do ministro dos Esportes, o governo federal promovia um esforço para manter o ritmo dos projetos ligados à Copa – e mais, para convencer o mundo de que os preparativos para este evento tão visado internacionalmente não seriam afetados por tais problemas.
Quanto aos estádios, não há muito a se preocupar – a não ser, talvez, a viabilidade econômica de algumas arenas depois da Copa. Serão 12 estádios novos ou reformados, vários com projetos arquitetônicos bastante chamativos e todos já em obras. Nove serão concluídos até o final de 2012, segundo prometeu o governo num relatório publicado em meados de setembro para coincidir com a contagem regressiva de mil dias até o primeiro jogo da Copa.
Dos 13 aeroportos escalados para receber melhorias, oito já se encontravam em obras e todos estarão prontos até a Copa, disse o governo, embora vários com "puxadinhos", como logo foram batizados pela imprensa os Módulos Operacionais Provisórios. Mas os leilões de concessão dos aeroportos de Guarulhos, Brasília e Campinas, há tempos anunciados para ocorrer em dezembro de 2011, corriam risco de ser postergados para 2012, devido à demora no processo de aprovação do governo e às incertezas quanto à forma de participação da Infraero, entre outras coisas.
Também houve questionamento na Justiça quanto à justificativa de urgência para dispensar de licitação algumas obras ligadas a um evento que, afinal, foi outorgado ao Brasil em 2007. Por outro lado, o governo ficou bastante animado em agosto com o ágio de mais de 200% alcançado no leilão para a concessão do aeroporto de São Gonçalo do Amarante, em Natal (RN), a primeira operação do tipo no setor no Brasil.
Mais problemático, talvez, serão as obras de mobilidade urbana nas 12 cidades-sede. São projetos como corredores urbanos, sistemas de Veículo Leve Sobre Trilho (VLT) e ônibus rápido em via preferencial (Bus Rapid Transit – BRT), estações de ônibus e monotrilhos. Parte mais cara do prometido "legado da Copa", as 49 obras de mobilidade urbana estão orçadas em R$ 12,1 bilhões, contra os R$ 6,4 bilhões destinados a melhorias nos aeroportos, os R$ 6,6 bilhões para os estádios e os R$ 899 milhões para ampliar a estrutura turística em sete portos, a fim de receber melhor os cruzeiros que servirão de paliativo à carência de hotéis.
Conforme relatou o governo em meados de setembro, porém, somente nove dos projetos de mobilidade urbana em cinco cidades já se encontravam em obras. Todos os outros já teriam cronogramas definidos para começar em breve e terminar antes da Copa, embora, em alguns casos, a entrega da obra esteja prevista para semanas antes.
Belchior diz que fundamental mesmo, para a Copa, são os estádios e os aeroportos. "Mobilidade urbana é um legado para as cidades, mas não são [investimentos] essenciais para a operacionalização da Copa do Mundo. Se decretarmos feriado nos dias de jogo, a cidade vai estar em condições possibilitar a locomoção dos torcedores", afirmou a responsável para o planejamento nacional.
O Brasil continua bem
Mesmo com seu rico cardápio de assuntos internos em 2011, o Brasil passou boa parte do ano prestando mais atenção às viravoltas da economia internacional. Além das suas dimensões humanas, a tragédia japonesa de março – terremoto seguido de tsunami e acidente nuclear – revelou o grau de integração internacional e interdependência da economia brasileira, com fábricas aqui parando ou diminuindo a produção devido à falta de peças – às vezes peças feitas até em outros lugares, mas com insumos vindos da região impactada. O Brasil certamente não sofreu sozinho, nesse sentido, e foi uma lição para o mundo globalizado.
A crise econômica nos Estados Unidos, e principalmente na Europa, impactava o Brasil de várias maneiras. Políticas monetárias norte-americanas, por exemplo, aumentaram a liquidez internacional e contribuíram para pressionar o câmbio brasileiro, valorizando ainda mais o real e barateando as importações, algo que foi sentido fortemente no setor de equipamentos para construção. Mas o maior impacto da crise internacional no Brasil talvez tenha sido a erosão da confiança, pela crescente sensação de incerteza que permeava o mercado. Resta ver se o acordo europeu para perdoar parte da dívida grega, além de proteger outros países da zona do Euro em apuros e reforçar os bancos, terá efeito duradouro ou somente temporário.
Os dois grandes mercados do Primeiro Mundo continuam, se não em recessão, certamente com crescimento bastante fraco, e com a demanda dos consumidores ainda reprimida. Conforme mostra o gráfico abaixo, a venda de automóveis novos nestes dois mercados continua bem abaixo do seu nível médio pré-crise, de 2006, enquanto no Brasil ela quase dobrou.
Mas, como revela o gráfico ao lado, os sinais de recuperação são mais visíveis nos Estados Unidos que na Europa – o mercado americano de automóveis chegou a crescer até mais que o do Brasil em 2011, enquanto na Europa a fraca recuperação, ensaiada entre 2009 e 2010, não se firmou. Isso não deve nos surpreender, à medida que muitos países do Velho Mundo andam demitindo servidores públicos, cortando gastos e aumentando impostos.
A situação do setor de construção na Europa é bastante heterogênea, com 18 dos 19 países membros da Euroconstruct registrando crescimento médio anual real de 4,6% negativos entre 2008 e 2010. A previsão é de uma recuperação média de 1,9% positivo entre 2011 e 2013. Mas a Espanha, com seu estoque estimado de 600 mil residências novas, construídas antes da crise e ainda vazias, derruba todas as estatísticas – a previsão de crescimento da construção no país é de -13,4% ao ano entre 2011 e 2012. Já no Brasil, o SindusCon-SP estima que o setor deverá crescer 5% este ano e a num ritmo de 4% a 5% ao ano, no futuro, após registrar um crescimento real acima de 13% em 2010.
Haja obra para tanto retro
No setor de equipamentos para construção, conforme dados da Off-Highway Research, de Londres, o mercado mundial cresceu 35% em 2010 – grosso modo, a metade da taxa de crescimento do mercado brasileiro naquele ano. E a taxa de crescimento global estimada para 2011 está em torno de 6%. O Estudo Sobratema do Mercado Brasileiro de Equipamentos para Construção (2011/2016) ainda se encontrava em curso no fechamento deste Anuário, mas as primeiras indicações apontavam que o desempenho do setor no Brasil talvez não destoasse muito da tendência global ao longo deste ano.
O mercado mundial continua quase 20% abaixo de seu ponto mais alto, que foi em 2007, e apesar da recuperação nos Estados Unidos e Europa, o crescimento global vem sendo puxado essencialmente pela China e Índia, com uma boa contribuição do Brasil. Essa tímida recuperação dos mercados mais ricos se reflete nos dados da Abimaq, que revelam uma recuperação nas exportações brasileiras de equipamentos para construção (especificamente os modelos da linha amarela) nos primeiros oito meses do ano, em comparação com 2009 e 2010, mas ainda abaixo do pico histórico de 2007.
No Brasil, 2011 testemunhou o continuado interesse de novos players, liderados por grandes fabricantes asiáticos de equipamentos da linha amarela. Entre investimentos atuais e prometidos em fábricas, centros de montagem, e ampliação de redes de distribuição, não somente destes novos players, mas também dos competidores já estabelecidos no mercado brasileiro, fica claro que o setor vem apostando no país e em seu mercado. Pelos planos anunciados, o Brasil pode ter em breve 11 fabricantes de retroescavadeiras – e a situação não deve ser muito diferente nos segmentos de escavadeiras hidráulicas e pás carregadeiras.
À medida que o mercado nacional se consolida neste novo patamar – e oxalá continue crescendo – a lógica sugere uma tensão constante entre importação e fabricação local em categorias de menor volume, sendo também relevante questões como a taxa de câmbio e eventuais restrições à importação.
Quo vadis?
"Nunca se deve fazer previsões, principalmente em relação ao futuro." Assim ensina a sabedoria popular, e não sem razão. Antes de ter disponíveis as projeções do mercado nacional de equipamentos para construção, contemplando um horizonte até 2016, o que podemos dizer sobre 2012 e além?
Já está quase certo que as taxas de crescimento da economia nacional, usadas pelo governo federal como embasamento do PAC-2 durante seu lançamento, no início de 2010, serão difíceis de concretizar. Refrescando a memória, o governo previu então um crescimento de 5% do PIB em 2010, e uma média de 5,5% ao ano entre 2011 e 2014. O "espetáculo" de 2010 avançou além da meta, mas este ano o crescimento será menor. Ainda em outubro, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, com seu otimismo contumaz, sugeriu que uma melhoria no nível de atividade econômica no último trimestre deixaria o Brasil com crescimento entre 3,5% e 4% este ano, caminhando para 5% em 2012.
Que assim seja. Mas é pertinente notar que o ânimo do mercado financeiro não compartilha da mesma visão. No último relatório Focus do Banco Central, antes do fechamento deste Anuário, a previsão consensual de crescimento para 2011 ficou em 3,3%. Foi uma deterioração de 21 pontos básicos em somente quatro semanas, apesar dos esforços do BC na redução da taxa Selic. E a expectativa para 2012 não passava de 3,5%. Ao mesmo tempo, as mais recentes projeções da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), publicadas em outubro, apontavam que o crescimento brasileiro será de 3,6% em 2011, caindo para 3,5% no próximo ano e atingindo 4,0% em 2013.
O Plano Plurianual 2012/2015, divulgado pelo governo federal em agosto e ainda sujeito ao apreço do Congresso, revela a determinação de aumentar sensivelmente o volume de investimentos, para R$ 5,4 trilhões ao longo do quadriênio – um acréscimo real de 38% sobre o PPA anterior, conforme mostra o gráfico ao lado. Especificamente na área da infraestrutura, o novo PPA aloca R$ 1,2 trilhão nesse período, somando recursos públicos e privados, distribuídos conforme indicado no quadro abaixo.
Ao mesmo tempo, o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) 2012, também apresentado pela ministra do Planejamento em agosto, aloca R$ 47,7 bilhões de despesas discricionárias para a infraestrutura em 2012, contra uma disponibilidade de R$ 38,1 bilhões em 2011. O maior crescimento seria para cidades, subindo 40% para R$ 17,6 bilhões, com a área de transportes subindo de R$ 16 bilhões para R$ 17 bilhões. Mas é razoável observar que os parâmetros do PLOA, apresentados pela ministra, incluíram crescimento real do PIB de 5,0% em 2012, com uma inflação anual de 4,8% (IPCA).
Planos ambiciosos nunca faltaram – e de fato são essenciais. Mas além da competência administrativa de colocá-los em prática, será necessário crescimento econômico e, para atingir os níveis desejados, o país ainda precisa enfrentar as reformas estruturais que foram deixadas de lado durante os anos de vacas gordas. Nas palavras da OCDE: "para atingir mais rapidamente níveis de renda mais altos, é essencial que o crescimento seja mais forte e duradouro". Para isso, as autoridades (brasileiras) terão que continuar aplicando políticas macroeconômicas, sociais e ambientais apropriadas, além de implementar reformas estruturais destinadas a estimular o investimento e favorecer o desenvolvimento das infraestruturas.
"Uma maior incerteza no cenário internacional e a crescente interdependência do Brasil em relação à economia mundial, o rápido envelhecimento da população e a dependência crescente das exportações de petróleo, vão obrigar as autoridades a ampliarem o conjunto de instrumentos de que dispõem para enfrentar esse desafio."
Venda de automóveis desde a crise: Brasil, EUA e EU
Fontes: Brasil, Anfavea; EUA, BEA; EU, ACEA
Obs: Registros novos; média mensal móvel dos últimos 12 meses; EUA + Brasil veículos leves, EU automóveis; Elaboração MiniMax Editora.

Venda de automóveis em 2011: Brasil, EUA e EU
Fontes: Brasil, Anfavea; EUA, BEA; EU, ACEA
Obs: Registros novos; média mensal móvel dos últimos 12 meses; EUA + Brasil veículos leves, EU automóveis; Elaboração MiniMax Editora.

Plano Plurianual 2012-15 – comparação com planos anteriores
Fonte: Ministério do Planejamento (valores corrigidos pelo IPCA jul/2011)
Plano Plurianual 2012-15 – infraestrutura
Fonte: Ministério do Planejamento

(*) O jornalista Brian Nicholson, da MiniMax Editora Especializada Ltda., é consultor da Sobratema e responsável pela Pesquisa do Mercado Brasileiro de Equipamentos para Construção, realizada pela associação.